Aldeia de Santos – Mação

HISTÓRIA E “histórias” DA MINHA TERRA. CONTOS SOBRE BRUXAS E LOBISOMENS

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Julho 14, 2017

 

 

A “narrativa” que se segue, bem diferente do sentido histórico decorrente dos “capítulos” anteriores, é fruto duma herança social que envolve uma pequena sociedade, durante muito tempo fechada, quer no espaço, quer no tempo, teve a sua fogaz época de expansão no século XX e que, infelizmente, tende a desaparecer. Resta-me a consolação da sua “tradição oral” passar a fazer parte dos meus registos. Poderão um dia, num contexto mais alargado as suas “estórias” integrarem uma “antropologia cultural regional”? Talvez. Penso que, ao entrar neste mundo de “lendas, costumes, crenças, tradições, etc.” creio que se justifica abrir aqui um parêntese para citar uma “orientação”, que também me esforço por seguir, do grande filósofo Bento Espinosa, descendente de família portuguesa obrigada a refugiar-se no estrangeiro fugindo aos esbirros da Inquisição. Reza assim: “Sempre que estudo os problemas humanos tenho procurado cuidadosamente não escarnecer, lamentar, ou condenar, mas apenas compreender”.

Prosseguindo: Estou de acordo com alguns autores ao admitirem que a cultura rural se concentrou, maioritariamente, nas aldeias criando inúmeras referências dos mais diversos acontecimentos dos tempos passados onde a família, a igreja e o próprio meio ambiente constituíam pólos nucleares. Lendas, magias de bruxas e de lobisomens, crendices e alguns mistérios da Natureza contados pelos mais velhos, ora nos centros sociais então existentes (tabernas), ora á volta das fumegantes lareiras nas longas noites de inverno eram ouvidas atentamente e com alguma ansiedade por uma juventude onde eu me incluía. Na verdade estes “contos” eram práticas que  estavam muito disseminadas no mundo rural. e a sua origem remonta a muitos milhares de anos desde os primeiros seres humanos a praticarem as primeiras religiões, conhecidas por “religiões primitivas” ligadas à Natureza, onde a “liturgia do mago, do feiticeiro ou do xamã” desempenhavam e ainda continuam a desempenhar papel importante passando pelas “mitologias pagãs” nomeadamente greco-romanas, que remontam a séculos antes de Cristo. Entendo que vale a pena dar um exemplo que chegou até aos nossos dias que faz parte da tão famosa “tragédia grega” que é conhecido pelo “mito Édipo”, filho do rei de Tebas. Ao nascer, seus pais consultaram o oráculo de Delfos, que na crença grega fazia a comunicação entre os deuses pagãos e os homens, neste caso através de uma vidente (Pítia), lhes teria anunciado que havia de matar o pai e casar com a mãe. Na intenção de fugir a esta horrenda profecia, o menino foi enviado para as montanhas onde cresceu, se fez homem, e numa discussão sem saber que o seu opositor era o seu pai acabou por matá-lo. Depois de algumas dificuldades foi eleito rei de Tebas acabando por casar com a rainha viúva, sua mãe. Mais tarde, ao tomar conhecimento do que se tinha passado, ficou horrorizado, arrancou os olhos e fugiu acompanhado pela sua filha Antígona .Daqui resulta que na maioria dos casos, a história ensina-nos que o homem é por natureza um ser religioso onde o “mito religioso” está intrinsecamente ligado.

Tais “contos” estiveram sempre presentes ao longo dos séculos, com particular incidência durante longos períodos das Idades Média e Moderna e foram pretexto para tantas desgraças praticadas contra inocentes onde a triste história da “famigerada caça ás bruxas” deixou marcas indeléveis a que não escaparam as gentes rurais onde as narrativas sobre bruxas e lobisomens e outras “feitiçarias” encontraram terreno fértil. A nossa região não escapou ao conto do “tradicional bruxedo” e como tal deixou também as suas “estórias” Estou-me a lembrar de um terreiro bem próximo da nossa aldeia situado entre os montes de S. Gens e de S. Mateus conhecido por Portela das Bruxas, onde actualmente convergem seis ou sete estradões. Segundo os “relatos rurais” que passaram de geração para geração aqui se juntavam em noites de lua cheia, bruxas dos Santos, Caratão, Pereiro, Castelo e Casas da Ribeira. No espaço central do terreiro desenhavam um circulo feito com pedrinhas e no seu interior eram colocados diversos objectos que elas consideravam possuir virtudes mágicas: um prato com azeite, algumas moedas para proceder a benzeduras, figas diversas incluindo uma ferradura usada de burro, uma caldeira de cobre igual ás que as mulheres das aldeias utilizavam quando amassavam a farinha para cozer o pão, algumas flores, ramos de plantas aromáticas onde não faltava a mal cheirosa arruda e em vez de velas de cera colocavam lanternas de azeite acesas para não se apagarem com o vento. Ao ritmo “animista” de uma dança frenética em redor do dito circulo e ao som dum murmúrio cavernoso entoavam, com frenesim, cantos satânicos carregados de intenções malévolas. Por fim, a mando da bruxa mais velha, a água contida na caldeira era aquecida até ferver onde se lançavam as plantas provocando um denso nevoeiro que envolvia todo o terreiro, ao mesmo tempo que eram lançadas todas as suas profecias fantasmagóricas, onde não faltavam as suas transformações corporais. Antes do nascer do sol terminavam estas danças macabras, o palco que tinham montado era cuidadosa e completamente desfeito para não atrair qualquer suspeita e quando as gentes das aldeias se levantavam para iniciar as suas lides diárias o cenário aldeão era o normal. Lembro-me de algumas mães ao repreenderem os seus filhos atemorizavam-nos nestes termos: “não vás para aí que está aí um caldeirão das bruxas”. Eu ainda tive a oportunidade de acompanhar um familiar a uma consulta (por marcação prévia) a casa de uma “dita bruxa”, bastante procurada, e tive a oportunidade de observar toda a sua “ladainha envolvente” Dessas consultas, á base de uma “psicologia rural” obtinham-se, por vezes, resultados positivos. Bruxos também por aqui haviam e parece que o mundo continua cheio destes “demónios”. Ainda ouvi falar de um “bruxo solitário”, residente aqui na região, que não fazia mal a ninguém, no entanto era visitado, com frequência, para os mais variados fins: consultas que consistiam em rezas, benzeduras, beberagens, indicação de chás de ervas aromáticas, etc., tudo relacionado com curas milagreiras onde não faltavam advinhações, doenças de “maus olhados”, zangas, etc. Quanto a lobisomens, segundo a opinião “rural”, cumpriam um triste fado. Estou-me também a lembrar de uma dessas “estórias” sobre um lobisomem que tinha como palco principal um local situado na encosta do Bando dos Santos chamado “Espojadouro” Contava-se que neste largo durante a noite se espojava, à semelhança como faziam os burros, bodes, carneiros, etc., um lobisomem completamente nu que, por vezes, se disfarçava num dos animais que ultimamente ali se tinham espojado. Findas algumas das suas cerimónias de magia negra percorria as ruas das aldeias vizinhas (na gíria popular “sete vilas acasteladas”) emitindo sons esquisitos no intuito de encontrar alguma candeia acesa para puder aplicar aos habitantes da respectiva casa os malefícios da sua feitiçaria. Geralmente tal não acontecia uma vez que os habitantes das aldeias precavidos e cansados devido à intensidade do trabalho dispendido durante o dia costumavam-se deitar cedo. No entanto tal não impedia que o seu “passeio troteante” fosse observado por alguns moradores mais curiosos, que se mantinham escondidos, sem articular palavra, com medo de serem vistos. Todo este aparato, como o das bruxas principiava cerca da meia noite e durava até ao primeiro canto dos galos e ao nascer do sol já tinham acabado as suas “cenas” ao mesmo tempo que passava a estar vestido como qualquer outro ser humano. Uma noite, tendo o lobisomem a ousadia de espreitar a dança que se desenrolava na Portela das Bruxas, teve a infelicidade de uma das bruxas ter descoberta a sua incómoda e atrevida presença que, sem fazer grande alarido para não espantar o inesperado espectador, contou o que tinha observado ás restantes que de imediato enviaram uma, transformada em ave agoirenta, ao “espojadouro” com a missão de lhe esconder o fato, o que veio a acontecer, vingando assim tamanho atrevimento. Quando regressou ao “espojadouro”, antes do nascer do sol, o lobisomem deu pela falta do fato e para não ser descoberto nu, foi esconder-se dentro de um forno convencido que ali poderia permanecer até que conseguisse reaver um fato afim de se apresentar perante a população da sua aldeia como qualquer outro mortal. Quando aos primeiros raios de sol uma mulher se aprestava para acender o fogo no forno para cozer pão feito á base de farinha de milho (o pão de trigo era uma “guloseima” só servido em dias de festa) foi surpreendida pela nudez do lobisomem. Embora fosse voz corrente na aldeia a existência de um lobisomem nestas redondezas, a mulher amedrontada com aquela visão transfigurada só teve tempo de gritar “foge daqui diabrete” ao mesmo tempo que lhe aplicava com a pá do forno no lombo, a laia de padeira de Aljubarrota, fazendo-lhe uma ferida. Com o aparecimento de sangue, dizia o povo, quebrava-se a sina dos lobisomens.

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CRUZADAS E ORDENS MILITARES E RELIGIOSAS. APARECIMENTO DAS ALDEIAS DE SANTOS E CARATÂO

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Junho 20, 2017

 

Deixando de lado o início da reconquista cristã no reino montanhoso das Astúrias (depois reino de Leão), tendo à frente o chefe visigodo Pelágio, e também as “guerras” que se prolongaram por muitos anos entre reis cristãos e “califas muçulmanos” com vantagens para os cristãos, entendo que chegou o momento de prestar atenção ao reino que estava a ser formado por D. Afonso Henriques, com destaque para as componentes religiosa e territorial. Na sua marcha vitoriosa para sul. D. Afonso Henriques recebeu a ajuda preciosa das Cruzadas e das Ordens Militares Religiosas, nomeadamente nas tomadas de Lisboa, Santarém e Alcácer do Sal. Contam alguns historiadores que o contributo prestado pelos “Cruzados” e pelas “Ordens” na tomada das cidades aos mouros não era só por amor á religião. Tal auxílio era previamente negociado. O saque que se seguia à vitória revertia escandalosamente, quase na totalidade, para aquelas forças e pouco ou nada sobejava para o novo reino. Mas isso é outra história. Das quatro Ordens envolvidas no auxílio á expulsão dos muçulmanos – Santiago, Templários, Calatrava e Hospital, merece-me especial desenvolvimento esta última por estar ligada, durante muitos séculos á nossa região, e como tal lhe dedico especial atenção. Depois de receberem chorudas doações dos reis pelos serviços prestados tornaram-se ricas e poderosas. Eram reinos dentro de outro reino. Todos os que as serviam não tinham qualquer obrigação perante o rei. Cobravam portagens, dízimos, rendas de terrenos, foros, etc. passavam licenças para a exploração das águas das ribeiras incluindo pescas e instalação de azenhas e nos campos também eram necessárias licenças para praticar a pastorícia. A Ordem do Hospital teve larga permanência na nossa região marcando parte da sua história. Foi criada em Jerusalém para dar apoio a peregrinos pobres e doentes. O rei D. Sancho I fez-lhe a doação do vasto território de Guidimtesta situado no Alto Alentejo e Beira Baixa, seguindo-se novas doações aumentando substancialmente o seu território. Envendos, Carvoeiro e Cardigos chegaram a fazer parte das doze vilas pertencentes ao priorado do Crato. O nome de “Bando maiore” (Bando dos Santos) creio que é aqui referido pela primeira vez. Segundo o investigador Mário Saa a zona onde se encontra implantada a aldeia de Santos seria um dos pontos que marcava a divisão territorial entre a Ordem e o Reino. Fundamenta a sua afirmação no documento “Privilegio de Belver”, de Junho de 1194, que a dada altura evidencia: “vertente de ribeira de Eiras e daí vai á frente de Bando maiore”. Tudo indica que os cavaleiros da Ordem faziam deste local que ainda hoje se chama Porto um ponto de referência. A riquíssima doação teve como principal objectivo não só travar a escalada dos islamitas para norte e para o efeito foram construídos, pela Ordem, os castelos de Belver e da Amieira, mas também proceder ao povoamento da chamada região ermada da Beira Baixa, que até então só servia de passagem à mourama como provam as lendas e os vestígios de estradas mouriscas que perduraram até aos nossos dias. É com a chegada dos novos “senhores” da Ordem do Hospital, no século XII que os poucos habitantes desta região que vinham resistindo a fomes, pestes e outras doenças passaram a ser abrangidos por uma renovada onda cristã, ao mesmo tempo que vêm as suas vidas protegidas a troco de chorudas compensações. As terras pouco produtivas foram divididas em courelas e distribuídas pelos camponeses a troco do pagamento de vários “impostos” mas as terras mais férteis ficavam a pertencer á Ordem. Actualmente ainda existem locais chamados “Vale da Ordem”, “Lameira da Ordem”, “Várzea da Ordem”, Chão da Ordem” etc. No entanto começam a ser reanimadas algumas aldeias e criadas outras, ergueram-se algumas capelas graça também ao fervor religioso das comunidades rurais, semente deixada pelos visigodos, como atrás ficou dito. A cruz de malta que se encontra á entrada da igreja dos Envendos é um bom exemplo. Sendo, muito provavelmente, o local onde se encontra a aldeia de Santos um dos pontos de passagem dos cavaleiros da Ordem da sua sede do Crato para Amêndoa, não admira que nas redondezas do “Porto”, atrás referido, se erguessem, antes do século XVI, muito provavelmente com o apoio da Ordem, duas ermidas em louvor de S. Mateus e de S. Gens, situadas nas proximidades dos Alicerces -Vale da Parede Se assim aconteceu, como penso, ainda não existiam as aldeias de Santos e Caratão , Vale dos Santos e Bando dos Santos mas apenas a denominação de “Bando maiore”. Tudo indica que é só a partir da construção destas duas capelas, em louvor dos seus Santos, que passam a existir devidamente identificados – aldeia dos Santos, Vale dos Santos e Bando dos Santos. Das várias hipóteses atrás sugeridas creio que esta é a que oferece maior consistência no sentido de esclarecer o Professor Hermano Saraiva como apareceu o topónimo Bando dos Santos. Que teria então acontecido ao antigo povoado situado nos Alicerces – Vale da Parede, pois creio que não foram os islamitas que alteraram, substancialmente, a tradição de centenas de anos deixada pelos visigodos cristãos. Teria sobrevivido, por quanto tempo, até dar origem ás aldeias de Santos e Caratão que ainda constavam unidas num censo mandado elaborar pelo rei D: João III em 1527? Como se deu a sua separação? Como não possuo referências escritas anteriores vou socorrer-me de “ estórias” que tive o privilégio de ouvir que foram passando de geração para geração convencido que a tradição oral se manteve sem interrupções. Fundamentando-me em tais “estórias” tudo leva a crer que a criação das duas aldeias resultou da desintegração do povoado situado nos Alicerces -Vale da Parede ficando a dever-se, provavelmente, a uma das duas causas: a) – Desentendimento entre famílias relacionado com heranças, posse de bens e nomeadamente casamentos controlados pelos “patriarcas” costume que foi perdurando ao longo dos tempos e nos meados do século XX ainda tive oportunidade de observar algumas destas tristes “subserviências” ou, b) – Natural abandono daquele povoado provocado por múltiplas doenças incluindo as prolongadas pestes mortíferas incluindo a grande epidemia de peste negra que arrasou a Europa nos século XIV e XV que fizera muitas vítimas a que nem o nosso rei D. Duarte e sua mãe D. Filipa de Lencastre escaparam. É também nesta época que por toda a Europa o ambiente populacional foi profundamente alterado com o consequente desaparecimento de muitas aldeias e o aparecimento doutras em locais diferentes.

Por fim devo acrescentar que a Ordem do Hospital que foi tão poderosa e rica a partir do século XII começou a definhar-se, progressivamente, a partir do século XVII com a criação do “Infantado” pelo rei D. João IV e nos meados do século XIX praticamente já não existia.

HISTÓRIA E “histórias” DA MINHA TERRA                                                      CRISTIANISMO E CRISTIANIZAÇÃO DA BEIRA BAIXA

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Maio 16, 2017

 

 

Como venho evidenciando, a religião tem sido uma das grandes forças modeladoras da história da humanidade que, em muitos casos, tem alterado a maneira de viver das sociedades. Para tanto tem contribuído a crença na existência de um outro mundo sobrenatural que está para além do pensamento humano e de todas as limitações. Creio que assim aconteceu com o Cristianismo. Com o seu aparecimento assistiu-se a uma verdadeira “revolução cristã”que teve origem na Palestina, então sob o jugo romano, há cerca de dois mil anos. A crença nos deuses pagãos e na identidade divina dos imperadores era seguida, naquela época, por todo o império romano. O imperador César recebeu honras divinas e o imperador Augusto foi adorado em vida. Tal religião opunha-se, ferozmente, à doutrina pregada por Jesus Cristo que anunciava, entre outras mensagens, a paz, o amor, a misericórdia, e a igualdade de todos os homens perante Deus valorizando, pela primeira vez, a condição humana, contrariando, assim, velhas religiosidades.

Após a morte de Jesus foram criadas em Jerusalém as primeiras comunidades cristãs, tendo como primeiros e principais promotores Pedro e Paulo. Nos primeiros anos não houve perseguições porque não existiam muitos cristãos e portanto pouco incomodavam. Só a partir dos anos sessenta, no tempo do imperador Nero surgiram as primeiras perseguições sanguinárias. Cada perseguição no intuito de aniquilar a difusão dos “Ensinamentos de Cristo” acabava por acrescentar novas conversões chegando ao ponto de Tertuliano, um teólogo cristão nascido no século II, afirmar que “ o sangue dos mártires foi a semente da Igreja”. Estêvão, que segundo Lucas era um “homem cheio de fé e do Espírito Santo”, foi o primeiro mártir da igreja, morto á pedrada em 33. Esta era uma forma muito habitual, naquele tempo, utilizada pela multidão pois servia para esconder, cobardemente, os verdadeiros assassinos. Mais tarde Pedro e Paulo foram martirizados em Roma no tempo do imperador Nero nos anos 63 e 67, respectivamente. Apesar de tudo, nada impediu que o cristianismo se expandisse em todas as direcções para norte, sul, este e oeste, ao mesmo tempo que se intensificaram os auditórios resultando como uma das consequências o aparecimento dos evangelistas. O primeiro foi o apóstolo Mateus, um dos doze discípulos de Jesus e antigo encarregado fiscal de Cafarnaum. Neste contexto entendo evidenciar, nesta primeira época, o apóstolo S. Paulo, considerado, na sua época, o mais eloquente divulgador do cristianismo. Nas diversas cartas que escreveu (são os mais antigos escritos cristãos que se conhecem) quero aqui registar um pequeno excerto de uma carta que dirigiu aos corintos que mexe com a sensibilidade de todos os que seguem a religião cristã: – “Dos judeus recebi cinco vezes trinta e nove açoites, três vezes fui espancado com varas e uma vez apedrejado; três vezes naufraguei e fiquei á deriva no alto mar durante uma noite e um dia; sempre continuei a viajar, enfrentando perigos de rios, perigos de bandidos, perigos da minha própria gente, perigos dos gentios, perigos nas cidades, perigos nos campos, perigos no mar, perigos de falsos irmãos. Trabalhei incansavelmente, passei muitas noites sem dormir, passei fome e sede, muitas vezes sem ter que comer ou beber, tive frio e andei nu. E, alem disto enfrento todos os dias a minha ansiedade por todas as novas igrejas”——. Isto é obra!!! Perante tantos sacrifícios não admira o particular interesse que foi dado á expansão do cristianismo para ocidente, ao longo da bacia do mar mediterrâneo, sendo acolhida com grande entusiasmo por todas as classes sociais das cidades. No século III já existiam igrejas cristãs em várias cidades da Lusitânia com destaque para Mérida, Évora e Ossonoba(Faro). Impossível deter tão entusiasta onda de expansão, levou o imperador Constantino a decretar liberdade do cristianismo em todo o Império. Devido á intensa actividade dos primeiros cristãos, a capital Mérida, tornou-se num dos principais pólos difusores da nova religião beneficiando de meios de comunicação bem organizados –  vias de comunicação terrestres, marítimas e fluviais – condições bem aproveitadas por militares, mercadores e, principalmente por bispos activíssimos incansáveis na divulgação da Boa Nova. A mensagem cristã era tão compreensível entre as classes mais desfavorecidas, que não necessitava de qualquer nota introdutória explicativa O Sermão da Montanha, o Bom Samaritano e o Filho Pródigo são alguns dos muitos exemplos. Tal dinamismo começou por encontrar boas condições primeiramente nas cidades e só mais tarde, com alguma dificuldade, passou para o mundo rural onde se mantinham velhas superstições do paganismo difíceis de superar, daí que a palavra pagão deriva do latim “paganus” que a partir do século IV era atribuído “aquele que vive nos campos e nas aldeias”, significado que, em minha opinião, nada tem a ver com a realidade actual. Assim, tudo indica que a expansão do cristianismo pelo interior da Lusitânia tenha começado, naturalmente, pelas regiões mais próximas de Mérida incluindo o norte do Alentejo e sul da Beira Baixa. Por esta altura o concelho de Mação encontrava-se fortemente romanizado, abrangendo não só os povoados existentes, mas também os aglomerados populacionais instalados junto das explorações mineiras, agrícolas e artesanais, onde as confrarias de escravos e artesãos depois de tomarem conhecimento dos “Ensinamentos de Cristo” aderiram com grande entusiasmo e a verdade é que no século V, (fim do domínio romano) toda a Lusitânia já estava cristianizada. Posto isto, tudo indica que as primeiras sementes do cristianismo lançadas no nosso concelho remontam a estes primeiros séculos.

HISTÓRIA e “histórias” DA MINHA TERRA

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Abril 19, 2017

ROMANIZAÇÃO DO SUL DA BEIRA BAIXA

Beirão – Beiras. Tudo leva a crer que esta palavra deriva de “berones” uma tribo muito aguerrida, provavelmente de origem celta, que autores antigos situavam nas imediações dos Montes Herminios. Depois de uma longa luta entre lusitanos e romanos que durou cerca de 175 anos desde o século II antes de Cristo até princípios de do século I da nossa era. O imperador Augusto acabou por pacificar toda a península Ibérica. Feita esta observação, segue-se uma pequena narrativa sobre o domínio romano na Lusitânia que não se limitou ás grandes explorações mineiras que ajudaram a encher os cofres do imperador, mas também contribuiu, positivamente, no que respeita ao incremento da agricultura, das pescas até então quase inexistentes, construção de estradas, pontes, monumentos, criação de cidades, introdução de costumes, vocábulos etc. A longa permanência romana no nosso concelho deixou marcas acentuadas de que nos dá conta a excelente obra “Monumentos Históricos do Concelho de Mação” da autoria de Maria Amélia Horta Pereira. Por entender que desempenha importância fundamental neste contexto uma abordagem regional, quer pela atenção que  desperta a quem por aqui passa, quer pelas mais variadas repercussões que teria tido “naquele tempo romano”, destaco, os vestígios deixados no terreno da grande exploração mineira – “corta a céu aberto da Alagoa” – situada a meio da estrada que liga Casas da Ribeira – Caratão, sobre a qual tomo a liberdade de expor alguns “desenvolvimentos” que ali teriam acontecido. Pela sua enorme dimensão ainda bem visível no terreno pode, segundo a minha opinião fundamentada num breve estudo comparativo que fiz com outras “cortas a céu aberto”, estar incluída no grupo das grandes explorações mineiras levadas a cabo pelos romanos. Alguns historiadores antigos referindo-se a estas explorações afirmam que nalgumas delas de maior dimensão, como é o caso, se desenvolveu intensa actividade chegando ao ponto de empregar muitas centenas de trabalhadores, a maioria de escravos, durante muitas dezenas de anos, chegando, nalgumas ocasiões, a centenas. Pois bem, para dar apoio logístico a tal grandeza de empreendimento era necessário criar um povoado nas proximidades, (a maior parte deles eram abandonados quando findava a exploração) onde se albergavam romanos, “lusitanos romanizados”, escravos, pedreiros, ferreiros, mineiros, encarregados de toda a espécie, guardas, etc.. Tudo indica que esse povoado teria existido na base do monte de S. Gens no local que actualmente é conhecido por Alicerces -Vale da Parede, a pouca distância da “Alagoa”, onde ainda há bem pouco tempo foram encontrados vestígios, muito provavelmente da época romana – mós, fragmentos de cerâmicas, de “tégulas e de imbrices. Saliente-se que a telha romana era composta por duas parte – tégula de aspecto rectangular com rebordos que servia de canal ás aguas das chuvas e de imbrices em forma de canudo que servia de encaixe completando a vedação. Ao longo da Idade Média foram feitas alterações passando a usar-se um único tipo de telha que servia de canal e de sobreposição a chamada telha romana. Estou convencido que a maior parte dos restos das habitações encontram-se escondidos sob a terra, pois por esta localidade ainda não passou qualquer escavação arqueológica. Por outro lado não pode passar despercebida a designação locativa Alicerces/Vale da Parede que não deixa de assentar em referências habitacionais que foram passando de geração para geração e que de algum modo constituem ecos bem sonantes de antigas existências. Ainda ouvi contar aos mais velhos que aqui existiram paredes com muitas e grandes pedras que teriam sido aproveitadas na construção de casas nas aldeias de Santos e do Caratão. A Lusitânia em termos agrícolas era pobre. Para além da bolota e de alguns cereais que eram transformados em farinha para fazer pão, era farta em carne de javali, de veado e de rebanhos de cabras que forneciam leite que também era aproveitado no fabrico de queijos. Conta a lenda que também existiam muitas abelhas, que além de produzirem o doce mel eram aproveitadas pelos lusitanos como armas de arremesso contra os seus inimigos provocando-lhes desagradáveis picadelas. Por coincidência ou não, os mesmos efeitos desagradáveis são salientados na Bíblia que a dado passo salienta “Para ajudar a conquista de Canaã Deus prometeu enviar vespas afim de assustar o inimigo (Deut. 7:20)”. Durante os séculos do domínio romano foi necessário recorrer á importação de alguns produtos alimentares nomeadamente cereais, apesar do historiador romano Plínio afirmar nos seus escritos que na Lusitânia chegou a existir duas colheitas de trigo por ano. A pasta de peixe com ervas aromáticas, azeite e sal, o afamado “garum” que se produzia em larga escala em Tróia (Setúbal) teria sido incluída nesses produtos alimentares. Outra cidade, para além da capital, que teria também desempenhado papel importante no que respeita a exportações e importações situava-se nas margens do Rio Tejo, território actualmente ocupado por Alvega/Ortiga, chamada Aritium Vetus. Nas proximidades da Ortiga, num local chamado Vale de Junco, ainda existe restos de um balneário do tempo dos romanos. Quanto ao abastecimento de água indispensável á sobrevivência da população residente no povoado dos Alicerces -Vale da Parede existem, em minha opinião, três “indicadores” que podem justificar a abundância de água naquela época, a saber: a) – Segundo a lenda de S. Gens, muito conhecida na região, a Fonte Santa que actualmente não passa de um “fiozinho de água”, mas nunca seca, jorrava, outrora, abundantemente. b) – Em escavações de terrenos para fins agrícolas, nos Alicerces -Vale da Parede e redondezas, foram encontradas vestígios de canalizações, que tudo indica serem do tempo dos romanos, por onde, muito provavelmente, circulava a água. c) – Contava o meu tio-avô Manuel Alpedrinha que quando procedia á abertura de uma mina, cujos vestígios ainda são bem visíveis, com a intenção de encontrar água para regas na sua propriedade dos Alicerces, a dada altura notou, com alguma surpresa, que o silêncio sepulcral sentido no interior da mina passou a ser interrompido pelo sussurrar longínquo de uma corrente de água que nunca conseguiu encontrar. Não teria existido qualquer fenómeno, talvez sísmico, de que a Natureza é tão fértil provocasse o desvio das abundantes águas da fonte para outro lugar? Conta-se que a grande nascente que aparece a pouco distância na ribeira de Eiras teria sido o seu destino.

Ainda relacionado com a ocupação romana na nossa região fortemente comprovada, entendo que vale a pena salientar como alguns costumes foram passando de geração para geração. Vem isto a propósito de uma palavra que ainda ouvi pronunciar nos meados do século passado, aos mais velhos desta aldeia, nestes termos: “é obrigatória a contribuição braçal destinada a reparar os caminhos vicinais”. Como teria chegada ás aldeias os”caminhos vicinais”, tradição que vai desaparecendo não só com a modernidade, mas também com o definhar das aldeias? Ora bem “via vicinale”, são palavras romanas que significam “via secundária”. Esta contribuição gratuita, que vinha de longa data, consistia na obrigatoriedade de dias de trabalho exigidos pela Câmara Municipal para reparar os caminhos, quase todos de “terra batida” que na sua maioria ligavam as aldeias á sede do concelho. Encontrei este esquema de reparação de caminhos no interior de Angola (Cuanza Norte) ainda sob o domínio colonial, durante os dez anos que lá permaneci.

HISTÓRIA E “histórias” DA MINHA TERRA PARTE IV

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Abril 7, 2017

LUSITANOS –  ADORAÇÃO A DEUSES PAGÃOS

 

Dentro da cultura religiosa dos lusitanos havia sempre lugar para mais um deus no sentido de manter a alma lusitana unida. Segundo os Profs. Leite Vasconcelos e Jorge Alarcão, a divindade indígena Banda ou Bandua (divino) era uma das mais adoradas na antiga Lusitânia, muito antes da chegada dos romanos. Embora tivessem existido, entre os lusitanos, um grupo alargado de deuses, o culto a este deus era o mais difundido. Tinha como raiz “band”, provavelmente de origem celta a mesma de Viriato, sendo considerado um deus protector ligado á divindade das águas e das montanhas. Foi encontrada aqui bem próximo, na aldeia de Vilar da Mó, uma ara consagrada a Bandei Picio. Alguns locais situados entre os rios Douro e Tejo (antiga Lusitânia) onde se prestava culto a esta divindade ainda conservam topónimos derivados de “band”, entre outros Bande, Bandei, Bandoga, Bandurro, Bando Real, Bandoiva, Bandinhais, e naturalmente Bando dos Santos. Tal não me surpreende pois nas redondezas do Bando dos Santos existem outros lugares cujos nomes decorrem da mesma origem ligados á abundância de água. Estou-me a lembrar de Corregona, Correguinhas, Corga de Água, Corga Alta e Corga dos Infernos, etc.. Outra divindade adorada dentro dos limites da antiga Lusitânia, muito ligada ao deus Banda era a deusa Navia ou Nabia que também pertencia ao grupo ligado ás divindades aquáticas, adorada, especialmente, junto de rios e fontes. Também segundo Leite Vasconcelos, a palavra navia era entendida por todas as pessoas com significado de “água corrente”, sendo alguns rios e fontes adorados localmente dando como exemplos a Fonte Santa em Bencatel, que deu origem ao nome da herdade de Fonte Santa(Alentejo) onde era prestado culto ao deus Fontanus, e a Fonte Santa em Lisboa que, desde longa data, atraíam muitos crentes devido á “virtude” das suas águas. Ora bem, o mesmo vem acontecendo também desde há longa data com as águas da Fonte Santa de S. Gens pois são bem conhecidos, regionalmente, os seus efeitos sobre o “fastio”, até se costuma dizer “pessoa que come muito não precisa beber água de S. Gens”. Não teria esta nossa fonte conservado algumas tradições pagãs ligadas á divindade Navia? Será pura coincidência existir nas suas proximidades uma localidade chamada Nave? Não terá havido aqui uma “simplificação popular” de Navia para Nave? É certo que, actualmente, a palavra nave diz respeito a navios, obras arquitectónicas etc., que nada tem a ver com a designação dada ao Vale da Nave por onde passa um ribeiro que vai desaguar á ribeira de Eiras. Não tenho conhecimento da existência, no nosso concelho, de qualquer artefacto relacionado com esta deusa mas já foram encontrados dois aqui bem perto, um no vizinho concelho da Sertã e outro nas proximidades da ponte Alcântara (Espanha). Como a mulher lusitana também participava em actos de culto não admira que uma divindade feminina, neste caso Navia, tenha sido a preferida. Algumas pedras também faziam parte das superstições dos lusitanos, sendo-lhes reconhecidas virtudes contra os efeitos aterradores provocados pelas trovoadas. Eram de cor avermelhada e a sua qualidade experimentava-se com a reacção que ofereciam ao fogo. Caso resistissem a altas temperaturas, as pessoas acreditavam que a posse destas pedras livrava-as dos mortíferos raios. Aqui nas redondezas da aldeia de Santos existem muitas destas pedras vulgarmente conhecidas por “pedras forneiras”. As danças e cantos guerreiros á volta de algumas fontes que os lusitanos consideravam santas eram, igualmente, uma das suas práticas pagãs favoritas onde sacrificavam alguns animais em louvor das suas divindades. Entre os vários animais o mais imolado era o bode ao qual atribuíam muitos dos seus sofrimentos. Por fim acabavam por comê-lo. Deste ritual não teria nascido a expressão actualmente usada de “bode expiatório”? Tal emprego não destoa do significado da sua origem. Durante o longo domínio romano na Lusitânia assistiu-se á difusão dos chamados “cultos romanos clássicos” Entre outros deuses saliento Júpiter, Marte, Mercúrio, e, principalmente, a deusa Juno, mulher de Júpiter, considerada igualmente uma deusa mãe devido á grande importância do culto que lhe era dedicado. Por outro lado sabe-se, conforme consta em diversos escritos, que as divindades indígenas nunca deixaram de ser completamente adoradas nem tão pouco os seus ídolos foram destruídos, acabando por alguns deuses indígenas serem romanizados. Posto isto, entendo que se justifica incluir neste contexto a existência de uma peça que está guardada na igreja de Santos, que foi encontrada pelo senhor Etelvino Dias na encosta do monte de S. Mateus, onde outrora existiu a capela em louvor deste Santo, peça essa que eu considero um contributo apreciável no que respeita ao relacionamento com o culto ás divindades introduzidas pelos romanos. Tudo leva a crer tratar-se de uma ara votiva, em granito, pedra não existente na região, bastante pesada, que funcionava como uma promessa a um deus pagão. Não tem nenhuma gravação (ara anepigrafada) que indique a que deus foi dirigida o que, segundo os costumes da época, teria partido dum pobre romano ou “lusitano romanizado” que não possuía meios financeiros para mandar proceder a tal gravação. No entanto, mediante uma observação mais atenta ainda se notam alguns sinais na pedra. Por tudo o que atrás fica dito, entendo que não posso deixar desligado o Bando dos Santos de tantas crenças e cultos velhíssimos. Segundo alguns contos orais que chegaram ao meu conhecimento, no seu ponto mais elevado marcado por um razoável planalto, onde actualmente existe um excelente miradouro, teria servido de lugar privilegiado, quer de encontro de povos amigos afim de acentuar relações amistosas e práticas religiosas, quer como centro de vigia relacionado com a defesa das populações tendo em conta a observação de movimentações de forças inimigas. As duas grandes explorações mineiras (buracas da Serpe) que foram feitas, há muitos séculos, nas proximidades deste planalto mais acentuaram a sua privilegiada situação estratégica. Na verdade, o seu aspecto solitário e majestoso com inúmeras fontes á sua volta teria impressionado os lusitanos a tal ponto de ser considerado, conforme consta da sua designação de origem celta já atrás citada, uma das muitas montanhas sagradas que faziam parte do seu património religioso. Para tal também teria contribuído a sua situação geográfica marcando um dos limites da velha Lusitânia funcionando como último “degrau” de uma grande “escadaria” que começa na serra da Estrela passando por diversas montanhas, entre outras, Gardunha, Muradal, Alvéolos. Para lá da outra margem do rio Tejo estende-se a grande planura alentejana onde, pela mesma época, teriam existido outros reinos entre eles os Conii e os Celtici.

HISTÓRIA E “histórias” DA MINHA TERRA Parte III

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Março 14, 2017

PRIMEIROS HABITANTES DA VELHA LUSITÂNIA

 

Na narrativa que segue, já em plena “História Escrita”, continuo a utilizar como guia uma breve cronologia histórica, desde os tempos dos velhos lusitanos, acompanhada com a introdução de diversos assuntos com reflexos não só na aldeia de Santos mas também na sua área envolvente.

Primeiros habitantes da velha Lusitânia – Quando terminei os meus estudos da “antiga 4ª. classe de instrução primária” fiquei a saber que tinha sido a tribo dos  iberos uma das primeiras povoadoras permanentes da península ibérica, da qual descenderam, em parte, os lusitanos. Surgem dúvidas como e quando chegaram os iberos à Lusitânia, Entre as várias hipóteses aventadas por alguns especialistas na matéria, houve uma que me provocou especial atenção segundo a qual os iberos tiveram a sua origem em sociedades que viveram muitos séculos antes de Cristo durante as conhecidas Idades do Cobre, considerada a Idade de Ouro da Europa, do Bronze e do Ferro. Não admira que a História de Portugal dirigida superiormente por José Mattoso se iniciasse pela Idade do Bronze. Seja como for e como a História não é uma ciência exacta não me surpreende que tal origem assim tivesse acontecido, pois existiram na nossa região, como em tantas outras da antiga Lusitânia, comunidades que aqui viveram durante aquelas idades, até porque a poucos quilómetros da aldeia de Santos foram encontrados vestígios de dois povoados, um localizado no Castelo Velho do Caratão  (Idade do Cobre), e outro situado um pouco mais afastado no Castro de S. Miguel da Amêndoa (Idade do Ferro) onde, em qualquer deles, o Dr. Calado Rodrigues despendeu grande parte das suas energias em proveitosas investigações arqueológicas acabando por encontrar grande quantidade de artefactos – adagas, machados, braceletes, lâminas de espadas etc., que fazem parte do património arqueológico do nosso concelho, guardados no Museu Dr. Calado Rodrigues. Por tudo isto parece não existirem dúvidas que o primeiro povoado, com habitação fixa e permanente no território actualmente ocupado pelo concelho de Mação, situou-se no Castelo Velho do Caratão (mais antigo que o Castro de S. Miguel) com a suas extraordinárias defesas naturais, situado entre as ribeiras do Aziral de Eiras e do ribeiro do Caratão. Tal sedentarismo é uma consequência do aparecimento da agricultura que foi progredindo do oriente para ocidente ao longo de milhares de anos, transformando, na sua maioria, os “grupos” de caçadores-recoletores, em sociedades fixas. É o começo da chamada “revolução neolítica” que para além do aumento populacional, criou boas condições para desenvolver novas actividades na cerâmica, na domesticação de animais, na pesca, na metalurgia, e na substituição de instrumentos de pedra pelo metal. É pena que aqueles dois “ monumentos históricos” e um já da época romana a “Alagoa do Caratão” tenham passado ao esquecimento ao ponto de actualmente não passarem de amontoados de pedras que nada nos dignificam. Consta que outra parte da ascendência dos lusitanos era de origem celta, comunidade que teria chegado á península ibérica por volta do século VII antes de Cristo. Não deixa de ser curioso que, segundo alguns autores peritos em diversas especialidades, incluindo a genética, afirmarem que a verdadeira origem dos celtas situou-se na península ibérica donde teriam saído para o noroeste europeu ocupando, a pouco e pouco, aquele território á medida que as grandes calotes geladas iam recuando para norte dando lugar a áreas florestais e agrícolas por alturas dos fins do paleolítico superior, cerca de dez mil anos antes de Cristo. Como as mais antigas fontes escritas sobre a evolução das comunidades na península Ibérica remontam apenas ao século VI antes de Cristo, é natural que a sua evolução se apresente com contornos muito complexos. O que parece não restar dúvidas é que por esta altura os celtas já se encontravam no Alentejo, donde passaram para a Beira Baixa e durante estas deslocações teriam fundado Abrantes com o nome de Tubuci. Para além de praticarem a agricultura chegando ao ponto de considerarem a foice como um instrumento sagrado, os celtas foram também os primeiros a introduzir a metalurgia na península ibérica. Acreditavam numa vida para além da morte chegando ao ponto de cremar os corpos guardando religiosamente as cinzas. Segundo alguns historiadores, já prestavam, também, culto ao deus Endovélico (Alentejo) palavra que, segundo alguns autores é de origem celta, que em português significa “muito bom”, o “melhor”. Para além dos deuses adorados na velha Lusitânia que noutro contexto mais apropriado tratarei com maior desenvolvimento, merece que seja desde já salientado o culto divino á grande Deusa Mãe, também introduzido na Velha Lusitânia pelos celtas, ligado á fecundidade que assumia várias formas entre as quais a veneração á deusa Lua, “que morre e renasce de vinte e oito em vinte e oito dias”, com reflexos no “ciclo menstrual feminino”. Decorrente deste culto é de salientar o respeito que os lusitanos tinham pelas mulheres como dadoras de vida, as quais faziam parte das reuniões dirigidas pelos mais velhos -”anciãos”, onde a sua voz era ouvida com respeito; combatiam ao lado dos homens incentivando-os com danças, ao mesmo tempo que entoavam violentos hinos guerreiros. Como os lusitanos viviam em locais elevados rodeados de bosques recheados de arvores gigantescas donde sobressaíam algumas clareiras, aproveitavam estes lugares estratégicos para a partir daí iniciarem desenfreadas correrias tendo como alvo pilhagens e ataques a povos vizinhos, pois eram considerados com grande habilidade para armarem emboscadas. Alguns historiadores romanos consideravam os lusitanos o povo mais aguerrido da península ibérica e os seus cavalos os mais velozes. Plínio historiador que viveu durante a época do domínio romano elogia a velocidade destes cavalos chegando ao ponto de criar um mito ao afirmar que “as éguas da Lusitânia são fecundadas pelo forte vento que sopra do oceano”. Perante esta afirmação penso que vale a pena salientar que nos meados do século passado foram descobertos numa herdade alentejana vários painéis do tempo dos romanos onde figurava o chamado “Mosaico dos Cavalos”. Tal achado confirma a existência de grandes propriedades agrícolas no Alentejo pertencentes á classe abastada de Roma onde se teriam criado cavalos de excelente qualidade o que levou alguns investigadores especialistas nesta matéria terem lançado a hipótese de já estarmos perante as primeiras representações do “cavalo lusitano”. Assim, não admira que das coudelarias destas propriedades agrícolas tivessem saído cavalos que se distinguiram nas corridas de quadrigas (carro puxado por quatro cavalos), espectáculo que tanto impressionava as populações daquela época. Face ao entusiasmo que estas provas despertavam justifica-se, plenamente, que na cidade de Mérida, ao tempo capital da Lusitânia, situada nas margens do rio Guadiana tivesse existido um “circo romano” considerado um dos mais importantes da península ibérica cujas ruínas ainda hoje se podem apreciar. Conta-se que um tal lusitano de nome Gaio Diocler ficou célebre por ter vencido várias provas no circo de Roma. Os séculos foram passando e os cavalos com origens na velha Lusitânia foram sendo instrumentos fundamentais nas batalhas vitoriosas que os reis de Portugal enfrentaram para manter a sua independência. No intuito de reanimar a divulgação do “cavalo lusitano” o nosso rei D. João V teve a feliz ideia de fundar a espectacular coudelaria Real de Alter do Chão, aqui tão perto do nosso concelho, privilégio que já tive ao visitá-la por várias vezes.

HISTÓRIA e “histórias” DA MINHA TERRA

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Fevereiro 11, 2017

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A “HISTÓRIA ESCRITA”

 

Não existem dúvidas que a História Escrita vem desempenhando papel fundamental na evolução das sociedades ao longo de milénio e como tal considero que se justifica evidenciar, entre muitos, alguns acontecimentos que a bruma dos tempos não apagou. Foi durante a época do Neolítico que apareceu a escrita registada em “tabuinhas de argila”, tendo a sua origem na Suméria onde actualmente se situa o Iraque, mas só passou a deixar testemunho por volta de três mil anos antes de Cristo data que marca o início da História. Para trás ficou um passado muito longínquo e obscuro conhecido apenas por documentos não escritos, que são os tempos da Pré-História. Também da Suméria da cidade de Ur teria saído, com destino a Canaã segundo o livro Génesis, por volta de 2.000 anos antes de Cristo, o patriarca Abraão e sua esposa Sara, obedecendo assim ao seu Deus.

A escrita contribui eficazmente para o cultivo da memória uma das componentes que mais distingue o homem dos outros animais. Sem a escrita não poderia haver história das civilizações como a conhecemos actualmente e até com algum fundamento se costuma dizer que “o conhecimento do passado é a melhor via para compreender o presente e prever o futuro”. Assim, já em plena idade da História escrita, para além dos primitivos registos das escritas cuneiforme (Suméria), hieroglífica (Egipto) e da primeira escrita alfabética (Fenícia) que chegaram até aos nossos dias, entendo que não é despropositado salientar obras que desempenharam papel importante não só nas épocas em que foram escritas mas também serviram de modelo a gerações futuras. Estou-me a lembrar, entre muitos exemplos, da Bíblia (primeiro livro a ser impresso e mais vendido no mundo), onde consta uma colecção de textos religiosos em que intervieram muitos autores, e que deve o seu nome à cidade Biblo (Fenicia) exportadora de rolos de papiro sobre os quais se escrevia, de Homero, Heródoto, considerado o “Pai da História”, Plínio, Estrabão, Virgílio que registaram nas suas obras, com pormenorizada imaginação, alguns acontecimentos considerados reais adicionando, muitas vezes, contos, lendas, mitos, etc. que, em muitos casos, não só valorizaram com alguma verdade subjacente esses acontecimentos, mas também ajudaram a construir civilizações e formar religiões ao longo de milénios. É através da escrita que José Leite Vasconcelos na sua magnífica obra Religiões da Lusitânia acentua, que com o aparecimento dos alvores da consciência humana o mundo sobrenatural foi encarado pelo ser humano como um enigma de respeito e esperança, procurando compreender a Natureza através de vulcões, chuvas, secas, rios, fontes, tempestades, Sol e Lua, considerando que tais forças deviam ser adoradas numa tentativa de alcançar uma maneira de viver mais harmoniosa. Quero ainda acentuar, se é verdade que não há notícia escrita de nenhuma raça, sociedade ou mesmo qualquer tribo que não tenha tido uma religião por mais misteriosa que tenha sido, por outro lado, também não deixa de ser verdade que a mitologia esteve em grande parte presente na narração dos grandes acontecimentos. É notório realçar que o significado dado muitas vezes ao que actualmente consideramos mito, vulgarmente usado na fraseologia corrente, apresenta significativas diferenças quando se entra no domínio da sociologia, antropologia e da história das religiões, chegando ao ponto de servir-se de complexos imaginários para influenciar o mundo real e como tal surge nas mais variadas narrativas ligados a poderes muitas vezes sobrenaturais, acontecimentos trágicos, heróicos e origens do mundo. Para mim, entre os inúmeros tipos de mitos de que tive conhecimento merece-me especial atenção os “mitos cosmogónicos” que se referem à origem do mundo e os “mitos heróicos” que evidenciam qualidades de bravura dos povos. Entre tantos que me têm impressionado, entendo citar apenas dois que me despertaram especial atenção não só pelo alcance que em si encerram, mas também por constarem em obras de excelência escrita literária.

-O mito bíblico  da criação do mundo citado no livro Génesis – “No princípio, Deus criou os Céus e a Terra e…. concluída, no sétimo dia, toda a obra que havia feito, Deus repousou”.

-O mito do Gigante Adamastor que surgiu na dobragem do Cabo das Tormentas pelo  navegador Bartolomeu Dias, começou por enaltecer a valentia dos lusitanos para depois os ameaçar com as suas “sumas vinganças”.o que, na realidade, veio a acontecer com a morte do seu descobridor.

Mas voltando à história escrita, partindo paulatinamente de um olhar distante para um mais próximo, penso que também se justifica emitir algumas referências à maneira como evoluiu a partir dos primeiros séculos no Reino de Portugal. Os primeiros indícios de escritos em português começaram a notar-se no chamado latim vulgar nos finais da dominação romana na península ibérica mas só no século do XIII aparece o mais antigo documento redigido em português, datado de 1214 incluindo algumas palavras que actualmente já não se usam. Refere-se esse documento ao testamento do Rei D. Afonso II em que entre outras disposições, o rei pede protecção ao Papa para o Reino e seus familiares. Também consta como mais antiga cantiga escrita a célebre cantiga “muyto me tarde o meu amigo da Guarda” da autoria de D. Sancho I, inspirado pela sedutora “Ribeirinha”, que o rei compôs quando da restauração da cidade da Guarda. A partir desta data começa-se a escrever em português arcaico onde entra em acção o “trovadorismo” com as cantigas de amor, de amigo e de escárnio e mal dizer. O  rei D. Dinis foi o trovador português que mais cantigas nos deixou, ultrapassando a centena. Seguiu-se a época dos cronistas que atinge o seu ponto mais alto na figura de Fernão Lopes. É precisamente no reinado de D.João I que como atrás ficou dito, a linguística escrita portuguesa atingiu a sua independência libertando-se definitivamente do lirismo galaico-português utilizado durante o trovadorismo. Segue-se a “época clássica” onde sobressai a poesia inconfundível de Luís de Camões, o maior poeta da literatura portuguesa. Antes de Camões a cultura europeia encontrava-se praticamente restringida à bacia do mar Mediterrâneo.Com a publicação dos Lusíadas onde consta a epopeia marítima portuguesa  -“por mares nunca dantes navegados” – “dando novos mundos ao mundo”- rasgaram-se esses horizontes.

Voltando à minha região, não deixa de ser lamentável que nos finais do século XIX, a escrita não fizesse, minimamente, parte da cultura dos habitantes da aldeia de Santos e das aldeias mais próximas – Caratão, Casas da Ribeira e Castelo. Era raríssima a pessoa que sabia escrever e no  entanto estas aldeias estavam prestes a atingir o pico mais elevado da sua população. É por esta altura que em boa hora, aparece na aldeia de Santos o Prof. Luiz Aniceto da Silva que desenvolve uma louvável iniciativa contra o analfabetismo nas aldeias atrás citadas e por volta dos meados do século XX eram raras as pessoas que não sabiam ler e escrever. Com as aldeias super povoadas e com fracos recursos económicos, os jovens agora possuidores desta “nova ferramenta” não tiveram dificuldades em procurar noutras paragens outras oportunidades conducentes, em grande parte com sucesso, a novas formas de vida, sem esquecerem a Terra que os viu nascer.

 

 

 

 

HISTÓRIA E “histórias” DA MINHA TERRA               

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Janeiro 29, 2017

PEQUENA INTRODUÇÃO HISTÓICA E PRÉ-HISTÓRICA

É sempre com redobrado prazer que falo e escrevo sobre a minha aldeia e região onde está integrada pois põe-me em contacto, mesmo em pensamento, não só com o magnífico ambiente que a envolve mas também com uma pequena “paisagem histórica” baseada numa tradição afectiva de costumes, crenças, lendas, fé nos seus santos e na diversidade dos seus mitos. Sempre que a minha imaginação seja influenciada por motivos que me possam dar prazer contribuindo igualmente para “disfarçar” esta minha provecta idade, não penso duas vezes em deitar mãos á obra. Foi o que aconteceu ao recordar, mais uma vez, o excelente programa Horizontes de Memória que o Prof. Hermano Saraiva realizou sobre o concelho de Mação. A visita prolongada que fez ao Bando dos Santos, que eu considero “o símbolo geográfico do nosso concelho” por ser a montanha mais alta, saldou-se por uma agradável surpresa para muita gente devido ao entusiasmo que incutiu nas suas palavras. No cimo da serra, ficou admirado com a paisagem e entre os vários elogios, a dada altura disse: “um sítio que ninguém conhece” – é verdade, talvez poucos conheçam, o que é lamentável, mas continuando: “É um dos mais espantosos miradouros da Terra Portuguesa. Esta expressão Bando dos Santos é impressionante, eu não sei explicá-la mas acho que é o único Bando de Santos que há em Portugal. Há Bandos de muita coisa mas de Santos este é o único”. Não nos podendo dar uma explicação sobre a dita “expressão”, pese embora o seu enorme talento de historiador, o Prof. Hermano Saraiva pôs á prova a sua sinceridade. Na verdade trata-se aqui de uma “história silenciosa” que ninguém escreveu pois nesta região não foram construídos castelos, palácios, mosteiros, não existiram personalidades de genealogia fidalga, não se travaram batalhas importantes nem tão pouco se registaram acontecimentos de monta. De facto alguns pormenores históricos regionais – lendas, mitos, costumes etc. devem, em minha opinião, constar em monografias locais. Estou de acordo que existem “Bandos de muita coisa” mas este está bem “toponimizado”, serra do Bando dos Santos – “Bando maiore” no tempo de D. Sancho I que, mais adiante, num contexto mais apropriado e explicativo não teria o mesmo significado que, actualmente, é atribuído á palavra “bando”, agora de derivação latina “bandum”, que passou a ser usada na linguagem corrente, nalguns casos em aplicações depreciativas. Cada povo invasor deixou as suas marcas linguísticas na Lusitânia e a confusão do vocabulário foi permanecendo e só muito mais tarde, por volta dos finais do século XIV e princípios do século XV a linguística portuguesa atingiu a sua autonomia, não se libertando, porém, das constantes manipulações que se foram registando ao longo dos tempos. Graças a este “salutar preâmbulo” encontrei motivação suficiente para, com a ajuda da minha imaginação dirigir a minha vontade para continuar a escrever este pequeno texto sobre um assunto que tanto me apaixona, ou seja, – “evolução cultural das sociedades humanas”. Assim, creio que não é despropositado dedicar breves considerações sobre épocas remotas relacionadas com o aparecimento do homem na Terra. Para tanto, comecei por recorrer á arqueologia, que na ausência de registos escritos, é a única disciplina capaz de nos fornecer informações sobre as nossas mais remotas origens apresentando-nos vestígios materiais através dos quais tomamos conhecimento, duma maneira genérica, do modo de vida dos povos, do processo evolutivo da humanidade (tudo indica não linear) desde o aparecimento do homo habilis, recem – chegado à Terra acerca de dois milhões de anos – e acentuo recém-chegado se tomarmos em consideração que o planeta Terra existe há cerca 4,5 mil milhões de anos – que viveu nas savanas africanas, já apresentava características humanas, não conhecia o fogo, presumindo-se que tenha feito algumas toscas ferramentas de pedra e de osso; seguiu-se o homo erectus que já dominava o fogo que teria vivido entre 1,8 mil milhões e 300.000 mil anos, tendo-se expandido pela Europa e Ásia; e numa época mais adiantada apareceram os Neandertais, presumindo-se descendentes de um ramo do “homo erectus” que já teriam dado mostras duma religião e por fim, cerca de 35.000 antes de Cristo, apareceu o homem moderno (sapiens, sapiens), que está na base de todas as populações humanas actuais. Por ironia do destino, localizando-se o berço da humanidade na África oriental subsariana onde parece, agora, estiolar a vida humana. Continuando a narrativa na ausência da história escrita que adiante se faz referência, passo a evidenciar, no meu entender, alguns dos principais vestígios encontrados na nossa região, incluindo as toscas ferramentas de pedra, atrás referidas, com destaque para os “bifaces” que começaram a ser utilizados há mais de um milhão de anos na África oriental, não se sabendo quando teriam chegado à Europa, incluindo Portugal. Numa altura em que esse homo erectus, segundo alguns autores, vagueava pelas densas florestas existentes nas margens do rio Tejo, procurando peixes e animais para seu sustento, deixou centenas de vestígios aqui no sul da Beira Baixa, nomeadamente nos locais de Monte Fármaco( mais antigo), Vilas Ruivas e Foz do Enxarrique (paleolíco médio), concelho de Vila Velha de Ródão, três estações arqueológicas que os arqueólogos consideram de relevante importância. É já a partir da época do paleolítico superior que o homem moderno (sapiens,sapiens) marca, acentuadamente, a sua presença na nossa região com sinais bem significativos que chegaram  até aos nossos dias com especial destaque para a arte rupestre. A grande quantidade de gravuras rupestres descobertas há bem pouco tempo, situam-se maioritariamente, nas margens do rio Tejo e seus afluentes. Importa acrescentar que durante dois anos, 1971/1972, foram descobertas, graças ao entusiasmo de alguns arqueólogos, nas margens do rio Tejo, milhares de gravuras rupestres, muitas das quais ficaram submersas pelas águas tranquilas da barragem do Fratel. Foi através da arte rupestre, ossos e dentes fossilizados que tomámos conhecimento não só de algumas movimentações das sociedades primitivas mas também da existência de animais que se foram extinguindo, muitas vezes devido ás grandes alterações climáticas verificadas ao longo de milhões de anos. Também é acentuado por alguns arqueólogos que o aparecimento desta arte no vale do Tejo e nos seus afluentes marca uma transição das sociedades nómadas de caçadores – recolectores para sociedades agro – pastorícias. Se acrescentarmos a tudo isto, já numa época mais adiantada, a grande quantidade de monumentos megalíticos (antas, menires, etc.) espalhados pelo norte alentejano e Beira Baixa e também os numerosos artefactos das Idades do Cobre/Bronze e do Ferro encontrados no nosso concelho, são suficientes para confirmar que muito antes da chegada dos iberos, lusitanos, romanos, visigodos e muçulmanos etc., esta nossa região nunca deixou de ser povoada.

 

 

 

CASTELO VELHO DO CARATÃO – UMA SOCIEDADE AGRO-METALÚRGICA PASSOU POR AQUI HÁ MILHARES DE ANOS.

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Fevereiro 25, 2014

O nosso conhecimento sobre o passado pré-histórico está cheio de lacunas e incertezas e o único meio posto à nossa disposição são as marcas deixadas nesse “grande livro”, sempre aberto e inesgotável, chamado planeta Terra. Graças ao esforço que vem sendo desenvolvido, há cerca de duas centenas de anos, por especialistas habilitados nas áreas da arqueologia, paleontologia e genética foi possível elaborar, embora com algumas reservas, um quadro evolutivo das primitivas sociedades humanas, o qual serviu de apoio a este trabalho. A descoberta da agricultura e dos metais marcou a grande viragem que se operou nas sociedades primitivas com a passagem do Paleolítico (antiga idade da pedra) dominado pela vida errante dos caçadores-recolectores ao longo de muitas centenas de milhares de anos, para o Neolítico (nova idade da pedra) a partir do qual a maioria dos humanos passou a usufruir de uma vida sedentária, fixando-se, geralmente, no cimo dos montes, na proximidade de cursos de água e de terrenos férteis. Os primeiros agricultores ter-se-iam instalado no Próximo Oriente há cerca de dez mil anos antes da era cristã e muito lentamente foram-se espalhando por toda a Europa, chegando à Península Ibérica por volta do terceiro milénio antes de Cristo. Da posse de alguns “segredos agrícolas”, o homem recorreu à sua inteligência e passou a utilizar os instrumentos mais adequados para dar início a pequenas alterações ambientais necessárias à instalação de campos agrícolas e de pastoreio, deixando para segundo plano a incerteza da caça e da recolecção. Assim, passou a utilizar machados para desbravar florestas, enxadas e arados de madeira puxados, primeiro por homens e mais tarde, por bois para revolver os solos, foices para ceifar os cereais (trigo, cevada), vasilhas de barro para guardar os alimentos e mós para moer os cereais. Paralelamente procedeu à domesticação de animais (cão, cabra, ovelha, porco e  boi), inicia a tecelagem á base de lã e linho,  inventa a roda e descobre a cerâmica. É na fase final do Neolítico, conhecida pela Idade do Cobre-Bronze (aproximadamente desde 4.000 a1.500 A.C.) que aparecem e são utilizados os primeiros instrumentos metálicos.

Os povos do paleolítico já conheciam os metais mas o seu uso só começou a desenvolver-se  por volta de 6.000 anos antes de Cristo. O cobre, o ouro e a prata encontrados inicialmente  quase em estado puro, não necessitavam de serem refinados e devido á sua pouca dureza podiam ser moldados quase como o barro. Quando o homem adquiriu o conhecimento das técnicas da metalurgia (exploração do minério, sua fusão e moldagem) e à medida que se foram criando centros de aprendizagem relacionados com esta arte, começaram a movimentar-se, paulatinamente, por toda a Europa no sentido este-oeste “grupos de mineiros e operários especializados” a tal ponto que, também no terceiro milénio antes da era cristã já se praticava a metalurgia em povoados situados no actual território português. Na manufactura dos primeiros utensílios metálicos, quer com destino á agricultura, quer com destino á defesa de povoados ou ainda destinados a objectos de adorno, apenas entrava o cobre e numa fase mais adiantada, passou também a utilizar-se o bronze (mistura de cobre e estanho).

Considerando as grandes alterações atrás referidas conjugadas com a quantidade e qualidade de artefactos metálicos encontrados no local onde se situa o Castelo Velho do Caratão; considerando as marcas deixadas, igualmente, na sua área envolvente resultantes de uma acentuada actividade metalúrgica; considerando ainda o resultado do estudo comparativo que fiz com outros povoados que tiveram o privilégio de serem minuciosamente investigados e ainda o que adiante se menciona, creio tratar-se de um povoado já com características agro-metalúrgicas com muitas possibilidades de ter sido o primeiro a erguer-se no território hoje ocupado pelo concelho de Mação. Como quase todos os povoados da mesma época instalou-se, estrategicamente, no cimo dum monte defendido por boas defesas naturais e até, provavelmente, por algumas muralhas aproveitando os vales férteis das ribeiras do Aziral, Eiras e do Caratão para praticar a agricultura, a pastorícia e a pesca. Soube aproveitar as vias de comunicação com destaque para o Rio Tejo, a pouca distância, para troca de experiências e estabelecer relações comerciais com outros povoados.

No sentido de contribuir para uma maior sustentabilidade da opinião que tenho sobre a fixação deste primeiro povoado no nosso concelho e não podendo recorrer, por inexistência, aos escritos históricos da época, procurei aproveitar o trabalho desenvolvido por muitos especialistas nesta área do saber, nunca esquecendo a figura incontornável do Dr. Calado Rodrigues. Assim, da posse de tais ensinamentos tentei seguir uma orientação mais razoável do que científica, a História por vezes é assim, justificando tal decisão descendo mais ao pormenor, com a apresentação dos “testemunhos” e  “argumentação” que se seguem:

1) – Embora estejam descontextualizados da época em apreço, entendo fazer aqui uma referência aos utensílios de pedra, uma herança do paleolítico (machado, alabarda, foice, punhal, faca, bastão, enxó, etc.), encontrados no Castelo Velho, que durante muito tempo foram utilizados, em simultâneo, com os  metálicos.

2) – Apesar de não terem prosseguido as investigações iniciadas nos meados do século passado no lugar do Castelo Velho do Caratão e áreas circunvizinhas, mesmo assim foram “desenterradas relíquias palpáveis das nossas origens”, sem dúvida, identificáveis com a Idade do Cobre.Bronze (machado, adaga, escopro, punção, espada, estilete, bracelete, etc.).

3 -Nas proximidades desta estação arqueológica no local chamado Lagoa são ainda bem visíveis grandes movimentações de terras presumindo-se que tenha existido aqui um grande exploração mineira e pelas características que apresenta, é comparável às minas de cobre, a céu aberto, que existiram no sul de Espanha. Muitos outros vestígios destas explorações existem nas redondezas.

4) – A poucas centenas de metros do Castelo Velho do Caratão, nomeadamente numa área delimitada pelos lugares de Alicerce, Ferrugenta e Vales Santos, encontram-se muitas escórias e até rochas que contêm minério o que comprovei em Instituição competente. A grande concentração de artefactos não pode estar dissociada da produção de minério desta região. Também foi encontrado um molde em pedra. Tudo isto indicia a existência, de um centro activo que recebia e emitia influências diversas ao mesmo tempo que desenvolvia uma actividade metalúrgica própria.

5 – Não me causa admiração que tão próximo se tenha encontrado o “esconderijo de fundidor” ou “depósito” do Porto Concelho, embora estes esconderijos apareçam, em geral, afastados de povoados ou de necrópoles. É notória a existência de muitas semelhanças quer tecnológicas, quer tipológicas entre alguns artefactos encontrados neste “depósito” e foram muitos, e os que foram achados no Castelo Velho do Caratão, o que considero mais uma prova para não me afastar muito de uma linha coerente ao afirmar que todos os objectos metálicos encontrados quer num local quer noutro teriam saído da mesma “oficina metalúrgica” aqui instalada. O que ainda falta esclarecer é a intenção que está por detrás de tais esconderijos, embora alguns arqueólogos tenham aventado várias hipóteses como sejam refundição, negócio, etc.

Face á crescente desumanização em todas as relações sociais que se vem notando neste mundo cheio de tecnologias e tecnocracias, é bom saber que grande parte do “ público”, onde me incluo, dispensa especial atenção e fascínio pelas “coisas da antiguidade” ligadas às nossas origens, a tal ponto que me leva também a acreditar naquela célebre e sábia observação actualmente muito divulgada: “ O conhecimento do passado é a melhor via para compreender o presente e prever o futuro.”

                                                                                                           

 

Santos, 25/02/2012

Júlio Alves                                                                                      

Um moleiro republicano

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Junho 2, 2013

A pouca distância da aldeia de Vale da Mua, “a dois passos “ da ponte sobre a ribeira do Aziral, para montante, são ainda bem visíveis as ruínas de uma azenha, abafadas por um emaranhado de silvas, que serviu de palco a uma “história”, que adiante contarei. Nos princípios do século XX, as águas da ribeira do Aziral mantinham em laboração contínua quatro azenhas e dois moinhos. Estes “engenhos”, a pouco e pouco foram desaparecendo, mas como diria Camões, a ribeira de “claras e frescas águas de cristal”, coisa rara nos tempos que correm, serpenteando, todo o ano, por entre pedregulhos, nunca foram conspurcadas por qualquer espécie de agente poluidor. Pois bem, foi nesta azenha que nos finais do século XIX, princípios do século XX, o tio Chico Inocêncio desenvolveu a sua actividade de moleiro. Apesar de ser um homem analfabeto, uma tristeza que envolvia as nossas aldeias de então, o tio Inocêncio era dotado de excelentes qualidades, onde não faltavam a perspicácia, a inteligência e a memória. Grande admirador do Dr. Samuel Mendes Mirrado, médico de um humanitarismo sem fim e entusiasta do ideal republicano, o tio Inocêncio cedo se apercebeu que era um exemplo a seguir. Ainda no tempo da monarquia, a azenha do tio Inocêncio tinha uma situação privilegiada no caminho que ligava a vila de Mação á vila do Carvoeiro. Não havia ponte sobre a ribeira, só mais tarde por iniciativa do padre Pequito do Carvoeiro tal obra veio a acontecer, e como tal, não foi difícil que numa das suas deslocações das muitas que o Dr. Samuel foi chamado por doentes, na sua maioria pobres, fez uma pausa na sua caminhada, prendeu o seu cavalo na argola cravada na parede da azenha e dispôs-se a dar “dois dedos de conversa” ao tio Inocêncio. Foi o começo de uma amizade que só viria a terminar em 1933 com a morte do Dr. Samuel. A partir desta primeira visita, o tio Inocêncio passou a ser um republicano dos”quatro costados” e todas as vezes que o Dr. Samuel se deslocava para estas bandas, e eram muitas, a azenha do tio Inocêncio era um ponto obrigatório de paragem. A dada altura, o Dr. Samuel apercebendo-se de tanta lucidez do moleiro proporcionou-lhe algumas visitas a Lisboa para se inteirar, com mais fundamento, das ideias republicanas. Como a sua profissão o obrigava a deslocar-se com frequência  ás freguesias do Carvoeiro e dos Envendos, não lhe foi difícil transformar a sua azenha num pequeno “pólo” da divulgação das ideias republicanas. Passou a receber algumas revistas e jornais, mas como não sabia ler, sempre que tinha oportunidade deslocava-se á aldeia dos Santos onde o seu grande amigo, o professor Luís Aniceto da Silva, apesar de professar ideias monárquicas, lhe lia os assuntos que mais lhe interessavam. O professor ficava bastante admirado pois no final da leitura o tio Inocêncio tinha retido na sua memória, até ao mais pequeno pormenor, o que acabava de escutar. Não se conformava com tanto analfabetismo nas nossas aldeias pois como dizia, “o estudo é só para gente rica”. Teve alguma influência na construção das escolas das aldeias de Santos e do Vale de Grou.  O seu grande entusiasmo para que cada vez mais houvesse pessoas a saber “escrever, ler e contar” está bem demonstrado na seguinte passagem: Por volta da segunda década do século passado, em que o Dr. Samuel era administrador do concelho de Mação, mas continuando a ser “médico dos pobres”, a dada altura numa das suas visitas á freguesia do Carvoeiro, passou pela azenha e teve esta expressão: “Oh Inocêncio,  parece que chegou a ocasião de nos vermos livres do monárquico professor Aniceto da Silva”. A resposta não se fez esperar: “Oh senhor doutor não pense em fazer tal coisa, o que nós precisamos é de muitos Anicetos da Silva”.  A descendência do tio Inocêncio espalhou-se pelas aldeias de Santos e do Vale da Mua.

 

ALGUMAS REALIDADES E “VIRTUALIDADES” DA FREGUESIA DE ENVENDOS

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Janeiro 18, 2012

 

ALGUMAS  REALIDADES  E “VIRTUALIDADES”  DA FREGUESIA DE ENVENDOS

 Parece não existirem dúvidas de que alguns genes que fazem parte do código genético humano, transmitidos de geração para geração são fiéis portadores da afectividade que nos liga á terra onde nascemos. É uma herança, que com maior ou menor intensidade, contempla todo o ser humano.   Sinto grande admiração por aquelas pessoas que nos souberam transmitir, duma maneira especial, essa dádiva da natureza. Estou- me a lembrar da ternura das palavras do poeta Guerra Junqueiro – “Desejava dormir o sono eterno abrindo junto ao berço a sepultura”; do Prof. Eduardo Lourenço – “Eu nunca saí da minha aldeia”; ou ainda do Prof. Universitário Padre  Anselmo Borges “o que gosto mesmo é de ir á minha terra”. Também  o concelho de Mação, onde tenho as minhas raízes, tem para mim mais encanto. Marcada bem esta minha posição tento, dentro das minhas possibilidades, contribuir para o bom nome desta terra. Neste pequeno texto abordarei alguns pontos que me merecem algum interesse  relacionados com a freguesia de Envendos, onde tenho a minha residência e que conheço bem desde há longa data. É a freguesia com mais área do concelho, com uma  situação geográfica privilegiada, a “dois passos” da auto estrada A-23. Até há bem poucas décadas toda a região era caracterizada por uma forte componente agrícola, uma saudável indústria e um comércio com alguma desenvoltura, mas a verdade é que ao longo de vários anos se vem notando, não uma estagnação mas um retrocesso das suas actividades provocado, não só por factores externos, mas também  por alguma falta de criatividade e engenho  dos seus dirigentes que não souberam ou não puderam encontrar as alternativas desejadas.

         Existe espalhado por toda a freguesia, com mais evidência na sua parte oriental, um  riquíssimo património não só dotado de espectaculares belezas naturais, mas também de inúmeros “vestígios seculares” que testemunham a permanência do homem nesta região desde os tempos mais remotos.  Aqui encontramos  – história, obras de arte  milenares, arte rupestre, fósseis, barragem, termalismo, paisagens maravilhosas etc., e ainda grande facilidade de acessos, contributos mais que suficientes para se tornar numa convidativa estância turística. Neste pequeno texto, por limitações de espaço abordarei, por agora, uma parte da freguesia começando por termalismo, que também é uma forma de turismo.

.      Por se encontrar próxima dos limites da freguesia, quero deixar aqui uma referência á velha “Fadagosa,”presentemente desactivada, mas que durante décadas contribuiu, com as suas águas medicinais, para que muitos doentes reumáticos tivessem uma melhor qualidade de vida. Que volte brevemente a exercer a sua função social é o que se deseja.  Há vários anos que frequento as termas da Ladeira onde tenho feito as minhas sessões de banhos  aproveitando a componente medicinal  das suas maravilhosas águas. Apesar das suas instalações não terem a dimensão desejada, verifiquei, com agrado, que aqui existe asseio, pontualidade, e pessoal muito bem preparado  proporcionando um salutar relacionamento com as pessoas que aqui procuram alívio para as suas doenças. Creio que a parte termal não tem acompanhado o grande impulso que vem sendo dado á excelente  água das Sete Fontes, bem conhecida  a nível nacional e internacional. Seria óptimo para a região que a Administração da Unicer, especializada na gestão de termas, fizesse um pouco de esforço no sentido de equipar as Termas da Ladeira com os requisitos que merece, nomeadamente no alargamento das suas instalações.

        Outro ponto de referência, que considero de muito interesse, situa-se um pouco mais a sul na serra onde se pretendia instalar um parque eólico mas não teve o andamento desejado, apenas uma unidade marca presença, talvez para não incomodar, segundo dizem, alguns morcegos que por aqui vagueiam, o que nos leva a concluir que houve uma imposição no sentido de proteger a biodiversidade. Mas a divina Natureza dotou este local com atracções extraordinárias. Ficamos deslumbrados com o magnífico panorama diversificado que daqui se desfruta – planura alentejana, serras e o tortuoso e espectacular lençol de água formado pela barragem da Pracana. Também aqui pudemos apreciar um fóssil a que os cientistas chamam “cruziana”, isto é, marcas deixadas por “bichos” na pedra que viveram há milhões de anos, testemunhos importantes que contribuem, significativamente, para o estudo das profundas alterações que se têm verificado no planeta Terra. Já vi   muitas fotografias de “cruzianas”, incluindo as que existemem Penha Garciamas não encontrei nenhuma como esta, que por ter uma disposição diferente, tem para mim um encanto especial. Gostaria de ver esta laje com os “bichos” no jardim de Envendos, pois além de ser uma atracção com características próprias poderia, também, desempenhar uma função cultural, provocando interrogações no pensamento das pessoas. Ali mais ao fundo fica o Pego da Rainha e a sua magnífica área envolvente. Sobre este local, que conheço bem, muito se tem falado. Não vou fazer qualquer crítica construtiva ou destrutiva, outros o farão, mas não pude fugir á tentação de satisfazer o meu imaginário, criando uma imagem virtual que me deu um certo prazer e que, resumidamente, passo a contar: “ Depois de tomar um café com  alguns amigos nos Envendos rumámos em direcção á Zimbreira, aldeia com uma situação privilegiada, e daqui rodámos por umas centenas de  metros por um excelente caminho que nos levou ao Pego da Rainha, onde num parque desafogado estacionámos as nossas viaturas. Apreciámos a paisagem lindíssima, e   como fazia calor resolvemos tomar  uma banhoca na bela piscina que se situa a seguir ao pego. Seguidamente, como um dos meus  amigos é um apaixonado da pesca desportiva  teve a feliz ideia de trazer o seu barco, convidou-nos a dar um refrescante passeio na albufeira da barragem, pois fica apenas a algumas centenas de metros, contribuindo, para tanto, o bom piso do caminho, e o acesso fácil do barco á água por um simples mas seguro cais.” Poderá um dia ser assim ? Talvez.

                                                                                                                              Envendos, 2 /11/2008

                                                                                                                                  Júlio Alves