Aldeia de Santos – Mação

HISTÓRIA E “histórias” DA MINHA TERRA. CONTOS SOBRE BRUXAS E LOBISOMENS

Posted in História e Geografia by aldeiadesantos on Julho 14, 2017

 

 

A “narrativa” que se segue, bem diferente do sentido histórico decorrente dos “capítulos” anteriores, é fruto duma herança social que envolve uma pequena sociedade, durante muito tempo fechada, quer no espaço, quer no tempo, teve a sua fogaz época de expansão no século XX e que, infelizmente, tende a desaparecer. Resta-me a consolação da sua “tradição oral” passar a fazer parte dos meus registos. Poderão um dia, num contexto mais alargado as suas “estórias” integrarem uma “antropologia cultural regional”? Talvez. Penso que, ao entrar neste mundo de “lendas, costumes, crenças, tradições, etc.” creio que se justifica abrir aqui um parêntese para citar uma “orientação”, que também me esforço por seguir, do grande filósofo Bento Espinosa, descendente de família portuguesa obrigada a refugiar-se no estrangeiro fugindo aos esbirros da Inquisição. Reza assim: “Sempre que estudo os problemas humanos tenho procurado cuidadosamente não escarnecer, lamentar, ou condenar, mas apenas compreender”.

Prosseguindo: Estou de acordo com alguns autores ao admitirem que a cultura rural se concentrou, maioritariamente, nas aldeias criando inúmeras referências dos mais diversos acontecimentos dos tempos passados onde a família, a igreja e o próprio meio ambiente constituíam pólos nucleares. Lendas, magias de bruxas e de lobisomens, crendices e alguns mistérios da Natureza contados pelos mais velhos, ora nos centros sociais então existentes (tabernas), ora á volta das fumegantes lareiras nas longas noites de inverno eram ouvidas atentamente e com alguma ansiedade por uma juventude onde eu me incluía. Na verdade estes “contos” eram práticas que  estavam muito disseminadas no mundo rural. e a sua origem remonta a muitos milhares de anos desde os primeiros seres humanos a praticarem as primeiras religiões, conhecidas por “religiões primitivas” ligadas à Natureza, onde a “liturgia do mago, do feiticeiro ou do xamã” desempenhavam e ainda continuam a desempenhar papel importante passando pelas “mitologias pagãs” nomeadamente greco-romanas, que remontam a séculos antes de Cristo. Entendo que vale a pena dar um exemplo que chegou até aos nossos dias que faz parte da tão famosa “tragédia grega” que é conhecido pelo “mito Édipo”, filho do rei de Tebas. Ao nascer, seus pais consultaram o oráculo de Delfos, que na crença grega fazia a comunicação entre os deuses pagãos e os homens, neste caso através de uma vidente (Pítia), lhes teria anunciado que havia de matar o pai e casar com a mãe. Na intenção de fugir a esta horrenda profecia, o menino foi enviado para as montanhas onde cresceu, se fez homem, e numa discussão sem saber que o seu opositor era o seu pai acabou por matá-lo. Depois de algumas dificuldades foi eleito rei de Tebas acabando por casar com a rainha viúva, sua mãe. Mais tarde, ao tomar conhecimento do que se tinha passado, ficou horrorizado, arrancou os olhos e fugiu acompanhado pela sua filha Antígona .Daqui resulta que na maioria dos casos, a história ensina-nos que o homem é por natureza um ser religioso onde o “mito religioso” está intrinsecamente ligado.

Tais “contos” estiveram sempre presentes ao longo dos séculos, com particular incidência durante longos períodos das Idades Média e Moderna e foram pretexto para tantas desgraças praticadas contra inocentes onde a triste história da “famigerada caça ás bruxas” deixou marcas indeléveis a que não escaparam as gentes rurais onde as narrativas sobre bruxas e lobisomens e outras “feitiçarias” encontraram terreno fértil. A nossa região não escapou ao conto do “tradicional bruxedo” e como tal deixou também as suas “estórias” Estou-me a lembrar de um terreiro bem próximo da nossa aldeia situado entre os montes de S. Gens e de S. Mateus conhecido por Portela das Bruxas, onde actualmente convergem seis ou sete estradões. Segundo os “relatos rurais” que passaram de geração para geração aqui se juntavam em noites de lua cheia, bruxas dos Santos, Caratão, Pereiro, Castelo e Casas da Ribeira. No espaço central do terreiro desenhavam um circulo feito com pedrinhas e no seu interior eram colocados diversos objectos que elas consideravam possuir virtudes mágicas: um prato com azeite, algumas moedas para proceder a benzeduras, figas diversas incluindo uma ferradura usada de burro, uma caldeira de cobre igual ás que as mulheres das aldeias utilizavam quando amassavam a farinha para cozer o pão, algumas flores, ramos de plantas aromáticas onde não faltava a mal cheirosa arruda e em vez de velas de cera colocavam lanternas de azeite acesas para não se apagarem com o vento. Ao ritmo “animista” de uma dança frenética em redor do dito circulo e ao som dum murmúrio cavernoso entoavam, com frenesim, cantos satânicos carregados de intenções malévolas. Por fim, a mando da bruxa mais velha, a água contida na caldeira era aquecida até ferver onde se lançavam as plantas provocando um denso nevoeiro que envolvia todo o terreiro, ao mesmo tempo que eram lançadas todas as suas profecias fantasmagóricas, onde não faltavam as suas transformações corporais. Antes do nascer do sol terminavam estas danças macabras, o palco que tinham montado era cuidadosa e completamente desfeito para não atrair qualquer suspeita e quando as gentes das aldeias se levantavam para iniciar as suas lides diárias o cenário aldeão era o normal. Lembro-me de algumas mães ao repreenderem os seus filhos atemorizavam-nos nestes termos: “não vás para aí que está aí um caldeirão das bruxas”. Eu ainda tive a oportunidade de acompanhar um familiar a uma consulta (por marcação prévia) a casa de uma “dita bruxa”, bastante procurada, e tive a oportunidade de observar toda a sua “ladainha envolvente” Dessas consultas, á base de uma “psicologia rural” obtinham-se, por vezes, resultados positivos. Bruxos também por aqui haviam e parece que o mundo continua cheio destes “demónios”. Ainda ouvi falar de um “bruxo solitário”, residente aqui na região, que não fazia mal a ninguém, no entanto era visitado, com frequência, para os mais variados fins: consultas que consistiam em rezas, benzeduras, beberagens, indicação de chás de ervas aromáticas, etc., tudo relacionado com curas milagreiras onde não faltavam advinhações, doenças de “maus olhados”, zangas, etc. Quanto a lobisomens, segundo a opinião “rural”, cumpriam um triste fado. Estou-me também a lembrar de uma dessas “estórias” sobre um lobisomem que tinha como palco principal um local situado na encosta do Bando dos Santos chamado “Espojadouro” Contava-se que neste largo durante a noite se espojava, à semelhança como faziam os burros, bodes, carneiros, etc., um lobisomem completamente nu que, por vezes, se disfarçava num dos animais que ultimamente ali se tinham espojado. Findas algumas das suas cerimónias de magia negra percorria as ruas das aldeias vizinhas (na gíria popular “sete vilas acasteladas”) emitindo sons esquisitos no intuito de encontrar alguma candeia acesa para puder aplicar aos habitantes da respectiva casa os malefícios da sua feitiçaria. Geralmente tal não acontecia uma vez que os habitantes das aldeias precavidos e cansados devido à intensidade do trabalho dispendido durante o dia costumavam-se deitar cedo. No entanto tal não impedia que o seu “passeio troteante” fosse observado por alguns moradores mais curiosos, que se mantinham escondidos, sem articular palavra, com medo de serem vistos. Todo este aparato, como o das bruxas principiava cerca da meia noite e durava até ao primeiro canto dos galos e ao nascer do sol já tinham acabado as suas “cenas” ao mesmo tempo que passava a estar vestido como qualquer outro ser humano. Uma noite, tendo o lobisomem a ousadia de espreitar a dança que se desenrolava na Portela das Bruxas, teve a infelicidade de uma das bruxas ter descoberta a sua incómoda e atrevida presença que, sem fazer grande alarido para não espantar o inesperado espectador, contou o que tinha observado ás restantes que de imediato enviaram uma, transformada em ave agoirenta, ao “espojadouro” com a missão de lhe esconder o fato, o que veio a acontecer, vingando assim tamanho atrevimento. Quando regressou ao “espojadouro”, antes do nascer do sol, o lobisomem deu pela falta do fato e para não ser descoberto nu, foi esconder-se dentro de um forno convencido que ali poderia permanecer até que conseguisse reaver um fato afim de se apresentar perante a população da sua aldeia como qualquer outro mortal. Quando aos primeiros raios de sol uma mulher se aprestava para acender o fogo no forno para cozer pão feito á base de farinha de milho (o pão de trigo era uma “guloseima” só servido em dias de festa) foi surpreendida pela nudez do lobisomem. Embora fosse voz corrente na aldeia a existência de um lobisomem nestas redondezas, a mulher amedrontada com aquela visão transfigurada só teve tempo de gritar “foge daqui diabrete” ao mesmo tempo que lhe aplicava com a pá do forno no lombo, a laia de padeira de Aljubarrota, fazendo-lhe uma ferida. Com o aparecimento de sangue, dizia o povo, quebrava-se a sina dos lobisomens.

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